Nas atividades, alunos exercitam voz, expressão corporal e improviso. Aprendizado pode ser levado não só para os palcos, como para a vida.
Mas para algumas pessoas, também em Copacabana, esses pequenos prazeres
pertencem a um mundo distante. Um mundo que assusta e intimida.
Esta é uma aula de teatro. Com uma diferença: só para tímidos, muito tímidos.
“Aqui e o espaço onde eu posso errar. Aqui eu tenho que arriscar, aqui
eu posso tudo, porque coisas que eu faço aqui, movimentos que eu faço
aqui, frases que eu falo aqui certamente lá fora seria bastante
difícil”,
“O que você deixou de conquistar por causa da timidez?”,
“Eu posso dizer que eu deixei de conquistar um bom emprego, uma ótima oportunidade de trabalho fora do país”,
“Por que você não teve coragem de ir lá ou você não deu um passo que precisava?”,
“Posso dizer que foi mais os olhares das pessoas, o medo de ser julgado, a vergonha”, explicou.
Teatro ou terapia? O responsável pelo curso, Léo Wainer, diz que as
aulas misturam um pouco as duas coisas. E revela que ele próprio já foi
tímido.
“Aquilo que eu senti eu quero que elas sintam a mesma coisa”,
Os alunos exercitam a voz, a expressão corporal, o improviso. O que
aprendem aqui não pretendem levar para os palcos, mas pra vida.
“Parece bobagem, mas às vezes pegar um telefone, ligar, pedir uma pizza
isso pode parecer muito trivial, mas já foi um grande problema, por
exemplo. Hoje em dia, a pizza não é mais não”,
A dificuldade pra falar com as pessoas levou a uma vida quase sem amizades.
“Você se fecha um pouco e não dá espaço. Então, as pessoas acham até
você um pouco antipática. Você acaba não tendo muito amigo. São poucos
amigos”,
Sair à noite, aproveitar as horas de folga depois do expediente pra
encontrar amigos, bater um papo. Quem é que não faz isso de vez em
quando?
Mas, encontrou uma maneira de superar essa dificuldade, se relacionar com outras pessoas e olha só, se divertir.
Dá pra ver pelo gingado, pelo sorriso, como ela se sente aqui.
“Muito feliz, quem dança com certeza é mais feliz”,
Já são três anos de aulas e o resultado vai além da escola de dança.
Você acredita que até os 59 anos de idade ela nunca tinha feito uma
festa de aniversário? Uma prima deu um empurrãozinho.
“Como eu entrei na dança, ela resolveu ‘vamos fazer uma festa pra
você?’. Eu falei, ‘olha, eu não tenho amigos pra levar’. ‘Pode deixar
que os convidados, eu levo’. Falei ‘tudo bem’”,
De lá pra cá, já foram três festas e o número de convidados só aumenta. Agora com amigos dela.
E onde tem música, a gente vê o contrário da timidez: é o que se chama de extroversão.
Franklin não para e diz que só é assim na pista de dança.
“Eu sou tímido na verdade, eu sou tímido. O problema é a musica, quando
começa a musica eu não consigo parar. É muito bom, rapaz".
Onde está a extroversão? Dentro da gente? Do lado de fora? Será que
existem pessoas, ambientes capazes de nos deixar animadíssimos e mandar
para bem longe a tal da timidez?
A DJ desta noite acredita que sim. Pra ela, é possível encontrar a
extroversão indo aos lugares certos, com as pessoas certas. Quem a vê
aí, comandando a festa, pode até não acreditar: dona Ana Lúcia teve que
lutar muito contra a timidez.
“Em criança a minha timidez chegava a coisa absurda, quando chegava uma
visita na minha casa eu me escondia, eu corria e me escondia, de
preferência embaixo da cama que era o meu lugar favorito. Eu tinha
vergonha que eu me achava muito feia, eu achava que eu tinha o nariz
achatado, que eu era pequena, baixinha".
A autoestima melhorou quando ela começou a trabalhar, conquistou a
independência financeira. E a virada, pra valer, veio quando ela se
aposentou e fez um curso de manequim da terceira idade. Trabalhou com
isso, ganhava um dinheirinho.
“Quer dizer que aquela timidez ficou mesmo bem lá pra trás?”.
“Ficou pra trás, abandonei mesmo. Hoje eu sou até assanhada demais, eu
me acho ‘pirigueti’ da terceira idade”.
Dona Ana já não se intimida com nada. Hoje, mora em campo grande, no
Rio de Janeiro. Conhece toda a vizinhança, é superativa, frequenta lan
houses.
Sozinha, atravessou oceanos: viajou pra Europa, para os Estados Unidos.
E, pra exercitar a extroversão, fez o curso de DJ. Para quem é tímido e
tem vontade de viver a vida mais leve, mais feliz, aí vai um conselho
de quem entende do assunto.
“Procurar uma atividade que dê prazer e exercer, tem que ir fundo. Não
pode travar. Tem que batalhar mesmo. Deixei de fazer muitas coisas por
timidez. Agora, não me escapa nada. Tudo que eu quero eu vou pra cima”.
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