Um encontro marcado pelo destino. Ou seria pelo acaso?
“Eu acho que nada é por acaso na vida da gente”, disse Miguel.
“A nossa vida muito antes da gente nascer ela já está ali programada”, completou Rejane.
A história que vamos contar começou na madrugada do dia 9 de julho de 2012.
Foi em um cenário improvável, debaixo de um viaduto da zona leste de
São Paulo, que surgiu um gesto de extrema grandeza. Um casal de
moradores de rua, acostumado à exclusão e à miséria, saiu do anonimato
para mostrar ao Brasil que honra, caráter e honestidade não dependem de
classe social.
O alarme da loja de ferragens tocou. Era um assalto.
“Levaram alguma coisa, coisas pequenas de pouco valor. Só arrebentaram
as telhas e levaram”, lembrou o dono da loja Henrique Vitorino.
Rejane e Sandra acordaram e foram ver o que estava acontecendo. Atrás
desta árvore, eles encontraram um saco de lixo com R$ 20mil.
“Até pensei: eu estou dormindo e sonhando com isso”, contou auxiliar de serviços gerais Rejane Silva Souza.
O saco foi entregue à polícia, que descobriu que o dinheiro tinha sido
roubado de um restaurante. Um dos proprietários, Miguel Kikuchi, mal
acreditou no que ouviu do investigador.
“Ah, é brincadeira, não é possível um negocio desses está acontecendo”, disse Miguel Kikuchi.
“Você não teve nenhuma dúvida?”, perguntou a repórter Beatriz Castro.
“O dinheiro não é meu, não me pertence. Não foi isso que minha mãe me
ensinou. O que minha mãe me ensinou, o que ela pôde passar pra mim, é
pra sempre procurar ser honesto”, respondeu Rejane.
“Quanto você tinha no bolso quando encontrou o dinheiro?”, indagou a repórter.
“Sinceramente se eu falar você não vai acreditar. R$ 1”, revelou Rejane.
Os três personagens desta história real se encontraram pela primeira vez na delegacia.
“O que eu imaginei foi assim. Ele vai dar uns trocos, R$50, R$100,
agradecer e ficar só por isso. Mas por ele não ficou”, disse Rejane.
Não ficou mesmo. A honestidade foi recompensada com uma generosidade surpreendente.
“Podia dar até metade do valor que foi recuperado mas eles iam voltar
pra debaixo da ponte novamente”, afirmou empresário Miguel Kikuchi.
Os sócios de Miguel no restaurante e numa peixaria concordaram.
“A nossa proposta é realmente ajudá-los a mudar de vida”, ressaltou sócio de Miguel Heiji Tamada.
A mudança começou poucos dias depois. Instalados num hotel, Rejane e
Sandra ganharam a chance de recomeçar. O ponto de partida? A disciplina
diária do trabalho.
“O mais difícil para mim é acordar cedo”, contou Sandra.
“Eles vieram com grande dificuldade de inserção na sociedade. Eram criados soltos, sem regras, sem disciplina, sem horário, sem rotina. Então eles vieram meio como pedras brutas. E estamos lapidando”, afirmou a psicóloga Alexandra Ortega.
“Eles vieram com grande dificuldade de inserção na sociedade. Eram criados soltos, sem regras, sem disciplina, sem horário, sem rotina. Então eles vieram meio como pedras brutas. E estamos lapidando”, afirmou a psicóloga Alexandra Ortega.
Rejane foi admitido como auxiliar de serviços gerais.
“Comecei pelo que eu entendia um pouco para não me embananar muito, trocar os pés pelas mãos”, disse Rejaniel.
Sandra agora é auxiliar de cozinha. Uma sucessão de surpresas.
“Quando o pessoal elogia, dizendo que ta tudo brilhando, tudo limpinho, como você fica?”, perguntou a repórter.
“Fico, modo de dizer, emocionada”, respondeu auxiliar de cozinha Sandra Domingues.
O que levou Sandra a viver oito anos nas ruas foram episódios
frequentes de violência doméstica. Já para Rejaniel, uma desilusão
amorosa foi o ponto de partida para os três anos mais difíceis da vida
dele. Ele se sentia invisível na maior cidade do Brasil.
“Sinceramente eu me senti totalmente afastado do mundo. A pessoa não te
vê, você fica um fantasma. Se te vê, já te vê com aquele mau
pensamento. Aí vem o preconceito”, contou Rejaniel.
“Tem muita lembrança ruim. Tem alguma coisa boa?”, questionou Beatriz.
“Desse tempo de rua? Tem. Ter conhecido a minha esposa”, afirmou Rejaniel.
Mesmo antes de devolverem o dinheiro, o casal já tinha conquistado o
respeito dos antigos vizinhos: os comerciantes estabelecidos ao lado do
viaduto onde moravam. É que nunca faziam confusão e deixavam tudo
limpinho.
“Eles nunca pediram nada, pelo contrário. Eles vendiam os papeis dele e
deixavam o dinheiro deles comigo. Por semana eu dava R$ 10, dava R$ 20,
inclusive ainda devo R$ 20 pra ele”, contou o dono da loja Henrique
Vitorino.
“Tem muita gente boa que tá nessa situação devido a tá desempregado,
não tem dinheiro pra pagar aluguel, não conseguiu um trabalho - essa
coisa toda”, disse Rejaniel.
O tempo de dificuldades, de abandono e da vida sem quase nenhum direito
vai ficando para trás. O Rejaniel e a Sandra estão cada vez mais perto
da cidadania. E esse é um momento muito simbólico pra eles. Eles estão
resgatando a própria identidade.
Os dois foram contratados para trabalhar na peixaria.
“Está aqui olha a carteira da Sandra. Esse é o nosso novo desafio, alfabetizá-la”, contou Alessandra.
Carteiras de trabalho assinadas e acompanhamento constante da psicóloga da empresa e também do Miguel.
“Dá um pouquinho de trabalho?”, perguntou a repórter.
“Ah, sim, com certeza. Eu diria que são dois adultos com cabeça de
criança. Nem meus filhos dão tanto trabalho quanto eles estão dando
agora, mas a gente vai reintegrar eles e colocar na sociedade. Isso eu
tenho fé em Deus que tudo vai acontecer, com o tempo”, respondeu Miguel.
A decisão de retribuir a devolução do dinheiro não parou na contratação de Rejaniel e Sandra. Foi muito além.
“Nós alugamos uma casa, mobiliamos uma casinha pra eles e está prontinha pra entregá-los”, contou Heiji.
Os colegas da peixaria se cotizaram para comprar utensílios domésticos para a casa nova. E fizeram uma surpresa.
“Há muito tempo que você não ganhava presente assim?”, perguntou Beatriz.
“Na verdade, eu nunca ganhei presente, primeira vez que eu to ganhando”, respondeu Sandra.
A casa nova está quase pronta.
“Falta pintar algumas paredes. A nossa ideia é dar o material - tinta, o
rolo, pincel - pra eles poderem pintar e valorizarem a moradia”,
afirmou Heiji.
As novidades não param na vida do Rejaniel e da Sandra. Eles estão aqui
com toda a bagagem, duas sacolas, uma mala, todo o patrimônio que eles
têm, de mudança a caminho da realização de um grande sonho, que também é
o sonho de quase todos os brasileiros e nós vamos acompanhar.
Eles vão morar pertinho do trabalho, uns dez minutos de caminhada, pra
não terem despesas com transporte, nem desculpa pra chegar atrasados.
“O que achou do novo endereço? Gostou?”, questionou a repórter.
“Gostei”, respondeu Sandra.
“Eles prepararam de acordo com o seu gosto. Você não gosta de verde?
Colcha, cortina, televisão, geladeira, fogão. Pronta pra morar”,
completou a repórter.
Muita gente quis testemunhar a entrega da casa. Os donos e os
funcionários da peixaria estavam emocionados por ter ajudado os novos
amigos a retomar a vida normal.
Geladeira cheia. Nos armários os presentes do chá de panela. Tudo equipado. Tanto carinho impressiona.
“Dá pra ser feliz aqui?”, perguntou Beatriz.
“Só não vou chorar na frente da câmera não”, disse Rejaniel.
E são prazeres que parecem tão simples. Quando moravam na rua, por
exemplo, Rejaniel e Sandra só conseguiam tomar dois banhos por semana.
“Rejaniel, você tava com saudade de um chuveiro bom?”, perguntou Beatriz.
“Com certeza. Há quanto tempo eu não tenho essa liberdade, esse prazer,
você saber que tem um canto pra você ficar, que você não se preocupa
com horário de chegada, como você vai dormir. É muito gratificante”,
respondeu Rejaniel.
É hora de reaprender quase tudo. Cuidar da casa, apagar as luzes, trancar a porta ao sair e fazer planos de vida.
“Aos poucos mudar de função até chegar a parte da cozinha, do restaurante, aprender a fazer uns pratos”, contou Rejaniel.
“Tirar a carteira de motorista?”, perguntou Beatriz.
“Tirar a habilitação, comprar meu carrinho”, disse Rejaniel.
Quem diria que aquele primeiro encontro, há três meses, iria unir pessoas de mundos tão diferentes.
Quem diria que aquele primeiro encontro, há três meses, iria unir pessoas de mundos tão diferentes.
“Eu não tenho palavras pra explicar, pra dizer pra ele, mas ele sabe,
Deus também sabe que eu sou grato a ele. O tanto que eu agradeço a ele.
Tava falando, a gente tem mania de falar: japonês é mão fechada, eu me
enganei. Ele não é mão aberta também, mas é muito legal”, completou
Rejaniel.
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