Rafaela não perdeu o ânimo nem deixou de seguir seus objetivos de vida depois de ter sido atacada por dois pit bulls ao tentar salvar menino de oito anos e ter o rosto desfigurado.
A conversa é animada, descontraída. Nem parece que estamos num quarto
de hospital, minutos antes de Rafaela fazer a 18ª cirurgia. Ela segue
sentada na maca, otimista. Sempre foi assim. Até nos piores momentos,
para surpresa e admiração de toda a equipe médica.
“A Rafaela vai pro bloco cirúrgico como se fosse fazer uma grande
viagem com os amigos. Ela vai animada. Ela não quer tomar o
pré-anestésico”.
O beijo na mãe e na irmã e, agora sim, os cirurgiões vão se dedicar ao
caso mais complexo que já viram em toda a vida profissional.
Quando foi socorrida pela primeira vez, há quase cinco anos, Rafaela
estava entre a vida e a morte. Tinha sido atacada por dois pit bulls.
“Ela corria risco de morte pela grande perda sanguínea, pela grande
perda de músculos da região da face e da dificuldade respiratória”.
De uma situação inesperada surgiu um gesto de extrema coragem e a Rafaela, que levava uma rotina parecida com a de tantas jovens,
dividida entre a faculdade, a família, o namorado e os amigos, foi
protagonista de um gesto de heroísmo que marcaria para sempre a vida
dela.
Ela estava na cozinha quando viu o filho da empregada em perigo no quintal.
O Mateuszinho tinha 8 anos de idade e muita curiosidade como toda criança.
Sem que ninguém percebesse, ele pegou o banquinho, encostou aqui no
muro, subiu esta coluna, sentou no alto com as perninhas voltadas para
dentro para tentar ver o que tinha do outro lado. Foi quando o pit bull
saltou e arrastou o menino. A Rafaela não pensou duas vezes: pulou o
muro para tentar salvar a criança.
Linda, alegre, cheia de planos. Esta é a foto de Rafaela antes do
ataque que desfigurou 70% do rosto dela. E quem disse que ela desanimou?
Rafaela Ferreira, aos 27 anos, está reconstruindo a própria história com golpes de perseverança e um otimismo contagiante.
“Rafa representa um exemplo de superação, um exemplo de que nós devemos
correr atrás mesmo com as adversidades que a vida nos traz”.
Ela entrou no karatê no início do ano, como uma terapia. Apanhar e reagir. Nunca se entregar.
“Aqui eu apanho mais porque tem muitos faixa preta aqui, mas a gente
vai pra campeonatos e aí eu consigo equilibrar. Eu acredito que eu me
tornei uma pessoa muito melhor depois do acidente, mais paciente, mais
compreensiva”, contou a coordenadora do Conselho Tutelar Rafaela
Ferreira.
Rafaela tenta, mas não consegue tirar da memória aqueles 20 minutos de ataques.
“Saía um vinha outro, saia um vinha outro. Eles são muito fortes. Uma
mistura de pavor, de impotência, de achar que é mentira aquilo que está
acontecendo também”, afirmou Rafaela.
Rafaela nunca escondeu o rosto, nunca desanimou.
“Esta força, esta maneira de encarar tudo com certa naturalidade. Isso surpreende as pessoas até hoje?”, perguntou a repórter.
“Muito. Às vezes até incomoda as pessoas. Elas ficam: ‘eu não acredito
que você está bem, que você é feliz assim’. Mas eu sou feliz, muito
feliz, muito feliz”, respondeu Rafaela.
“Você faria tudo de novo?”, quis saber Beatriz.
“Faria sem dúvidas”, afirmou a jovem.
Mateuszinho vive com a mãe no interior. Também ficou com cicatrizes e
prefere não falar mais sobre o acidente. Rafaela continua salvando
crianças, só que de outra forma. É coordenadora do Conselho Tutelar de
Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife.
“São questões de matrícula escolar, abusos sexuais, maus tratos, uso de drogas, ameaça de morte”, contou Rafaela.
A dureza desse dia a dia fez Rafaela se sentir ainda mais forte.
“A gente lida com situações tão trágicas aqui que eu não consigo ver
que o meu rosto é um problema assim, porque a gente vê situações que eu
falo assim: meu Deus, obrigada pela vida que eu tenho, pela família que
eu tenho, por ser tão feliz”, afirmou DRafaela.
Um grande obstáculo não impediu que Danielle realizasse alguns sonhos.
Ela se formou em zootecnia, é muito atuante na defesa das crianças mais
vulneráveis e segue irradiando alegria e ensinamentos por onde passa.
“Enquanto tem vida tem esperança, enquanto tem o sangue circulando tem
um potencial de melhoramento. Isso me ensinou bastante”, ressaltou o
cirurgião.
“A gente tem que enfrentar porque sempre tem pessoas com problemas
maiores do que o da gente e eles estão superando. Então por que a gente é
diferente, que não pode superar? Acho que é isso”, afirmou Rafaela.
“Heroína?”, indagou Beatriz.
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