Adriano enfrentou dificuldades e preconceito, mas conseguiu mostrar seu
talento como violinista para mundo. Hoje é maestro na Espanha, mas não esqueceu
suas origens e ensina jovens de um bairro pobre do Recife.
Do palco mais nobre de Pernambuco aos caminhos de lama, no bairro de
Peixinhos, em Olinda. O lixo, a pobreza e as dificuldades ainda fazem
parte da rotina dos moradores.
Adriano de França nasceu lá. Hoje mora na Espanha, onde é maestro e
violinista. E vem ao Brasil todos os anos para rever os parentes e
velhos amigos.
Os amigos de infância enfrentaram juntos as dificuldades da pobreza extrema.
“A gente carregava lavagem pra porco e a gente comia também. A gente
pedia pão na vila pra comer”, disse carroceiro Mariano do Nascimento.
Eles tiveram destinos bem diferentes. Edmilson é carroceiro.
Para Adriano, a perspectiva de uma vida melhor começou aos 12 anos. Na
escola tinha uma novidade, uma banda de música. Adriano se apegou aos
instrumentos e às notas musicais como quem agarra a maior oportunidade
que a vida lhe ofereceu.
Israel é o homenageado de hoje. Sob a batuta do maestro Vanildo, estão meninos cheios de sonhos.
“Eu quero chegar a ser sargento-músico da Marinha”, disse estudante Emanuel Constantino.
“A música em primeiro lugar ela tem a obrigação de fazer essa
transformação nas crianças, a partir dos 12 anos, 13, 14”, afirmou
maestro Vanildo Maia.
Adriano agradece tocando. O som do violino encanta a plateia atenta - ávida por aprender o que Adriano pode ensinar.
“Uma responsabilidade e um prazer poder voltar, ver esta turma com
vontade de vencer e saber que eles estão espelhando numa pessoa que teve
os mesmo passos que eles”, ressaltou violinista e maestroAdriano de
França.
Menino negro, pobre, filho de um operário e de uma lavadeira. A
trajetória de Israel ficou marcada por um ato de racismo que indignou o
Brasil. Tanto que a história foi contada num ‘Caso Verdade’, nos anos de
1980. Atrasado para uma apresentação, ele corria apressado com o
violino nas mãos quando foi detido. Os policiais pensavam que Adriano
tinha roubado o instrumento.
“Eu tive que tocar uma música para o delegado para provar que eu não tinha roubado o violino”, disse Adriano .
“O que você tocou?”, perguntou a repórter Beatriz.
"Eu toquei uma música de Bach, que é Jesus - Alegria dos Homens”, contou Adriano.
Provada a inocência, Adriano soube transformar a injustiça num motivo a mais para vencer na vida.
“Por que aquilo aconteceu? Por que foi comigo? Eu ia com o violino
correndo, por que tenho que ser ladrão? Eu acho que multiplicou minha
vontade, minha garra de estudar, vontade de superar”, afirmou Adriano.
As dificuldades, o preconceito, a discriminação. Tudo isso ficou para
trás. O talento e a obstinação serviram de passaporte para levar o
menino da periferia até onde ele sempre sonhou. Hoje, Adriano de França
circula com desenvoltura pelos bastidores, camarins e palcos do Brasil e
do exterior.
Tocando ou regendo. Adriano construiu uma carreira de prestígio na
Europa. E se apresenta no Brasil como atração nos concertos de música
erudita.
Ao todo, Adriano já doou 17 instrumentos para jovens aprendizes, como a Manuela e, pra cada um deles, esse gesto fez uma enorme diferença.
“Eu espero que Adriano tenha orgulho de ter me dado esse presente um
dia, estou estudando pra isso”, disse a atendente de telemarketing Manuela Marinho.
Manuela é filha de um vigilante e de uma dona de casa. Trabalha como
atendente de telemarketing e tem pouco tempo para estudar. Mas encontrou
em Adriano o incentivo de que precisava.
“E ele faz aulas comigo e sempre busca me elogiar. ‘Você tem muito
talento, está tocando muito bem’. Às vezes estou tocando horrível, mas
ele diz que eu estou tocando bem e eu fico feliz”, contou Manuela
Marinho.
Adriano também faz questão de visitar os projetos sociais para
compartilhar o que aprendeu. É quando ele assume o papel de regente. Do
tipo exigente. Quer extrair o máximo de cada músico.
É a orquestra criança-cidadã dos meninos e meninas do coque, um bairro
pobre e violento do Recife. Os jovens aqui têm histórias parecidas com a
de Israel. E também o talento.
“Qual a dica que você dá pra essa meninada?”, perguntou Beatriz.
“Estudar, estudar, estudar - não tem outro”, respondeu Adriano.
O prazer de ver um aluno progredir não tem preço.
“Que tal a lição?”, questionou a repórter.
“Foi ótima. A gente viu que ele conseguiu, nós também podemos
conseguir. Sonhar, estudar, estudar e estudar”, afirmou o estudante João Paulo Lima.
Incentivar os jovens músicos, ajudá-los a aprimorar o talento e a
acreditar nos sonhos. Este é o grande espetáculo regido hoje por Adriano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário